Biografia

Fonte: Mendo Castro Henriques, Bernard Lonergan- Uma Filosofia para o séc. XXI, 2010

Joseph Francis Bernard Lonergan nasceu em 17 de Dezembro de 1904 em Buckingham, Quebec, no   Canadá. O pai era engenheiro de ascendência irlandesa, e a família da mãe era inglesa. Aos 13 anos, entrou para o Colégio de Loyola, de Montreal (Crowe, 1992, 5) aderindo à Companhia de Jesus, em 1922 e seguindo o habitual longo percurso de formação: os primeiros quatro anos em Guelph, Ontário (1922-26) como noviço; três anos de filosofia em Heythrop College (1926-29), perto de Oxford, e mais um ano estudando línguas e matemática na Universidade de Londres. Vieram depois três anos de regência de cursos em Loyola College (1930-33; 4 anos na licenciatura em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, preparando a carreira académica (1933-37) e, finalmente, a terceira prova durante 10 meses em Amiens, França (1937-38) após a qual fez votos solenes. [1]

Frederick Crowe descreve esses anos de aprendizagem de Lonergan, no mundo anterior ao Concílio Vaticano II. Havia «leituras sobre a vida de Cristo e dos santos, a Imitação de Cristo, sobre documentos jurídicos e espirituais jesuítas, o velho Afonso Rodriguez (1532-1617), a prática da perfeição e virtudes cristãs. Havia as instruções do mestre aos noviços, as “exortações” pregadas por austeros sacerdotes na comunidade, e assim por diante. Havia as penitências, publicação das faltas, admitidas voluntariamente ou indicadas pelos companheiros em ágapes transbordantes, e havia muita oração… a mais lenta de todas as práticas a aprender».[2]

Era uma vida que ensinava a disciplina e o estudo sério, embora de modo um pouco rígido e restritivo; serão marcas do trabalho de Lonergan. Mas nestes anos de formação e estudo, ele experimentou interesses e influências intelectuais muito variadas. Em Guelph aprendeu latim, grego, francês, retórica e matemática. Em Heythrop, estudou por manuais escolares, “de origem alemã e conteúdo Suareziano” (Second Collection, 263) mas interessou-se pela teoria do conhecimento, em particular na obra Grammar of Assent, de John Newman. Na Universidade de Londres voltou a estudar línguas e matemática, que prezava particularmente, vindo a dar cursos de línguas e de cálculo, geometria analítica e mecânica no Colégio Loyola. Aqui começou a ler sobre Platão e os primeiros diálogos bem como os diálogos filosóficos de Agostinho.  Age of the Gods, de Christopher Dawson reorientou o seu conceito de cultura do plano normativo para o antropológico.

Em Roma, Lonergan contactou com o tomismo transcendental de Jacques Maréchal, enquanto se apropriava de Tomás de Aquino no original e em oposição ao Tomismo dos manuais escolares. Os escritos deste período revelam interesses pela cultura, filosofia da história, ciências humanas, sociologia, política, economia.  No essencial, Lonergan reverteu a filosofia tradicional centrada numa psicologia metafísica numa metafísica psicológica fundada no processo de auto-apropriação do sujeito cognoscente.

Apesar de não ser um aluno premiado, desenvolveu ambições intelectuais exemplificadas por uma carta de 1935 a um superior: «Consigo elaborar uma filosofia fundamental tomista da história que ofuscará Hegel e Marx, apesar da enorme influência deles nessa obra. Tenho já escrito um esboço, disso como de tudo o mais. Examina as leis objectivas e inevitáveis da economia, da psicologia (ambiente, tradição) e do progresso  . . . para encontrar a síntese superior destas leis no Corpo Místico.» Não escapará ao leitor que Hegel e Marx, não eram leituras recomendadas para um jovem sacerdote em Roma e, ainda mais, na Itália fascista. Mas fica bem claro como ele era já audaz, capaz de pensar sem imprimatur. E também fica claro que o corpo místico de Cristo é, desde S. Paulo, um dos conceitos mais integradores da teologia. Os registos da Universidade Gregoriana em Roma mostram que, a 6 de Dezembro de 1938, a dissertação de Lonergan intitulada O pensamento de S. Tomás sobre a graça operativa foi aprovada para apresentação, sob a orientação de Charles Boyer, sendo completada em 1940. Segundo as suas palavras, «…demorei11 anos até atingir a mente de S. Tomás de Aquino.”    [3]

Nesta sua dissertação, Lonergan abordou a graça operativa um tema que foi o cerne da grande controvérsia entre Bañez e Molina sobre como conciliar a liberdade humana com a omnipotência, omnisciência e vontade salvífica de Deus. Lonergan argumentou ser necessário compreender o desenvolvimento do pensamento de Tomás de Aquino sobre esta questão, a fim de apreender a síntese complexa e a dinâmica alcançada e evitar a desintegração “da solução em alternativas irreconciliáveis”.[4]

Outros escritos deste período de “aprendizagem” com Tomás de Aquino são os quatro artigos publicado em Estudos Teológicos e posteriormente recolhidos em Verbum: Word and Idea in Tomás de Aquino, (CW vol. 2) Lonergan explora a analogia trinitária da Summa Theologiae I. qq. 27 e 93. A análise desloca-se das perguntas teológicas sobre a graça e liberdade para as questões filosóficas sobre a interioridade, isto é, como Deus se revela na consciência. O fulcro é a análise do acto humano de compreensão.  Lonergan emprega o método do desenvolvimento histórico para entender como Tomás  recontextualizou as analogias psicológicas de Agostinho sobre a Trindade mediante a psicologia metafísica de Aristóteles.  A novidade é que as “técnicas introspectivas” usadas por Agostinho e Tomás para analisar a mente humana não comportam o fundamento do seu modo de operar. Falta apropriarmo-nos do que sucede quando conhecemos e do que conhecemos quando sucedem os actos de intelecção.[5]

Depois de concluir a dissertação, ensinou nos seminários de Montreal e, depois, em Toronto. Entre 1953 e 1965 leccionou na Universidade Gregoriana, Roma, até lhe ser diagnosticado cancro no pulmão. Após a intervenção cirúrgica recuperou foi para Regis College, em Toronto, sendo-lhe reduzidas as obrigações lectivas e concentrando-se na investigação. Aí ensinou até 1975, com uma breve passagem por Harvard em 1971-2. O seu último cargo de ensino foi em Boston College, 1975-1978.

Entre 1949 e 1953, Lonergan redige Insight, publicado em 1957. O livro tem 875 páginas na edição definitiva, da Universidade de Toronto; são muitos os que confessam nunca o ter lido por inteiro e poucos o releram. A escrita é laboriosa, e com evidente peso de quem leu muito latim escolástico. O estilo é adequado ao método, mas o conteúdo nem sempre é fácil de seguir: por vezes é, decepcionantemente simples, outras vezes tem uma obscuridade que não é acompanhada da aura das escolas analíticas e existencialistas. Mas é, provavelmente, um dos únicos tratados filosóficos do séc. 20 que revela uma assimilação das mais importantes áreas do conhecimento humano, digerindo uma complexidade que ultrapassa em muito as situações epistemológicas interpretadas em tempos passados por Platão e Leibniz.

Lonergan chamou-lhe “um ensaio de auto-apropriação”. Pretendia que fosse “uma exploração dos métodos em geral, em preparação para um estudo do método da teologia”: mas ao saber que seria transferido para ensinar em Roma[6] teve de “arredondar” o projecto. A intenção de Insight é colocar cada um de nós a prestar atenção ao seu próprio conhecimento. O livro está estruturado para responder a duas questões: O que sucede quando estamos a conhecer? E o que conhecemos, quando isso sucede? A resposta à primeira questão viabiliza uma teoria cognitiva e uma epistemologia (caps. 1-10) O capítulo 11 serve de enlace para a segunda questão cuja resposta origina uma metafísica (chs.12-17).  Os últimos capítulos estabelecem a possibilidade da ética e da teologia (caps. 18-20). 

O escopo da obra é imenso: «A auto apropriação da nossa auto-consciência intelectual e racional começa como teoria cognitiva, expande-se para uma filosofia fundamental e uma ética, e avança para uma concepção e uma afirmação de Deus, para ser finalmente confrontada com o problema do mal que exige a transformação da inteligência auto-confiante no intellectus quaerens fidem[7]. Creio que, se cumpriu estes objectivos, tornou-se a mais importante obra de filosofia para o séc. 21.

Uma opinião preguiçosa sobre Lonergan apresenta-o como um tomista que, mais tarde, procurou integrar o pensamento de Tomás de Aquino com a filosofia, as ciências e historiografia modernas. Mas Frederic Crowe afirma que os interesses fundamentais de Lonergan precedem o estudo da escolástica.[8] As primeiras ocorrências do conceito de intelecção surgem em escritos sobre Euclides, e sobre o juízo reflexivo em Newman. Estes horizontes foram adiados durante os onze anos que Lonergan levou a “alcançar a mente de Tomás.” Mas o que Lonergan encontrou neste “retiro intelectualista” permitiu-lhe ampliar o interesse inicial  pela intelecção, usando-a como chave de compreensão do vasto horizonte dos seus conhecimentos.

Entre 1956 e 1964, Lonergan escreveu tratados teológicos com cerca de 1400 páginas. Escritos em latim para os seus alunos na Universidade Gregoriana, não tiveram circulação nem ele os considerou particularmente válidos; considerou-os meras reflexões adaptadas ao sistema vigente. Uma situação parecia-lhe intolerável: tinha de dominar o Antigo e o Novo Testamento, a Patrística, os períodos medieval e da Reforma, a teologia moderna e filosofia contemporânea e esta dispersão colidia com a especialização crescente das ciências históricas. Como então escreveu: “O novo desafio vinha das Geisteswissenschaften, a partir dos problemas da hermenêutica e da crítica histórica, e da necessidade de integrar as conquistas do século 19, neste domínio, com os ensinamentos da religião católica e teologia católica”.[9]

A este desafio Lonergan respondeu com o livro Método em Teologia, publicado em 1964. O título promete menos do que o livro realmente oferece: um ensaio de metodologia geral, ilustrado por problemas específicos das disciplinas científicas. Em Insight expusera a origem dos métodos em geral no dinamismo da consciência; no Método apresentou os método das ciências humanas e da teologia como especificação da metodologia. 

A obra permitiu-lhe consolidar o que já mostrara em Insight e em nos artigos Verbum; a importância do chamado “quarto nível” da consciência, referente à liberdade. Se Insight fora uma exploração do conhecimento e uma expansão de saber até incluir a noção de juízo, o Método visa integrar plenamente a decisão. A estrutura tríplice de Insight é integrada na estrutura superior quadripartida de experimentar, entender, julgar, e decidir. Esta estrutura integra pensamento e acção, conhecer e fazer, constituindo a invariante de todos os métodos de conhecimento.

Com base na estrutura quadripartida, Lonergan introduz um conjunto de oito operações correlacionadas, a que chama de “especialidades funcionais”. A pesquisa histórica define o âmbito das três primeiras: Investigação, Interpretação e História. Em quarto lugar vem a Dialéctica que procura os valores subjacentes aos conflitos, e que convida o investigador à decisão. Cada um deve assumir a responsabilidade de decidir “de que maneira ou medida, devo eu carregar o fardo da continuidade ou arriscar a iniciativa de mudança”.[10] As quatro especialidades funcionais seguintes completam o ciclo da compreensão de acordo com o horizonte – ou sua ausência – de apropriação intelectual, moral e religiosa.  Os Fundamentos explicitam o grau de apropriação; a Doutrina selecciona a partir das matérias classificadas pela Dialéctica. A Sistemática busca um entendimento coerente da Doutrina escolhida, e a Comunicação, traduz esse entendimento em cada ambiente cultural.

Todo o livro é um exercício de apropriação intelectual em que se trata de aprender a distinguir entre tipos diferentes de conhecimento, e discernir o respectivo alcance. O Método desenvolve a apropriação moral e religiosa, apenas esboçada em Insight. A apropriação moral é a passagem da auto-satisfação para o valor como critério de decisão e acção. A apropriação religiosa é o amor, ou seja, o estar apaixonado de forma irrestrita. E teríamos ainda que falar de apropriação estética Topics in Education, texto derivado das conferências pronunciadas em 1959, em Cincinnati, sobre o papel da filosofia na educação. Os Tópicos não só constituem uma reexposição completa das teses de Lonergan como mostram o diálogo com outras áreas científicas e filosóficas.

Na última década de vida, Lonergan dedicou-se a investigações no campo da economia. Movido por um impulso pastoral nos anos 30, virou-se para a análise económica, criando uma teoria inovadora da natureza dos ciclos económicos (For a New Political Economy, Toronto, CW 21). Quarenta anos depois, em Boston, tendo completado o Método, e depois de ter considerado retomar as reflexões religiosas no âmbito da sua metodologia, retomou os temas de economia. Enquanto leccionava cursos de pós-graduação sobre macroeconomia e o bem humano, completou uma obra fundamental Macroeconomic Dynamics: An Essay in Circulation Analysis.[11] Para surpresa dos que desprezam o seu pensamento como “intelectualista”, Lonergan observou que o seu estudo da economia foi realizado para que “as viúvas e os órfãos não morressem de fome”.[12]

Bernard Lonergan utiliza o conceito de Michal Kalecky sobre a existência de dois tipos distintos de bens, de consumo e de produção, e adiciona um sistema de duplo circuito monetário, a circulação monetária de mais valia e a circulação monetária básica e a ideia de dois ciclos distintos, o ciclo comercial (que é inconstante) e o “ciclo puro” que envolve a importância de se gastar dinheiro em aumentos de produtividade, para ter aumento do padrão de vida no ciclo seguinte. Segundo Stephen Martin, a macroeconomia de Lonergan tem a sofisticação teórica de um Adam Smith, Karl Marx, John Maynard Keynes e Milton Friedman. As suas contribuições são necessárias, especialmente quando a depressão económica está no horizonte, e os “booms” que aumentaram o nível de vida da maioria da população no globo até à grande crise de 2008, foram seguidos por perturbação crescente. Em 2010, a economia caminha em território desconhecido.[13]

Um especialista escreveu algures, e pouco generosamente, que “Lonergan estava sempre a afiar a faca, mas nunca cortou nada com ela”, criticando-o por ser um metodólogo.[14] É uma apreciação enganadora. É verdade que podemos considerar as obras de referência, Insight, Método e Tópicos, como livros de metodologia. Mas é ainda mais verdade que Lonergan foi um filósofo profundamente preocupado com os desafios de conhecimento no mundo da segunda metade do séc. 20, em explosão de informações; que considerou imprescindível o diálogo com autores cruciais da filosofia e das ciências; que contribuiu para uma perspectiva universal do conhecimento. Sobre estas propostas fundamentais, há ainda muito a aprender com ele e a recepção do seu pensamento ainda agora começou.[15]

Sendo-lhe diagnosticado cancro no cólon em 1983, Bernard Lonergan veio a morrer em Pickering, Ontário a 26 de Novembro de 1984, aos 79 anos de idade. É muito provável que tenhamos perdido, nesse dia, um dos maiores filósofos do séc. 20.


[1] Cf. Frederick Crowe SJ. Lonergan, Liturgical Press, Collegeville, Minn., p. 992, bem como as próprias reflexões de Lonergan em “Insight Revisited” A Second Collection, Toronto, 1974, pp.263-278.

[2] Idem

[3] Insight, Epílogo, p.769

[4] Byrne, Patrick H.  “The Fabric of Lonergan’s Thought” Lonergan Workshop v., ed. by Frederick Lawrence (Atlanta: Scholars Press, 1986), p.69

[5] Byrne, pp. 55-57

[6] A Second Collection, p.268

[7] Insight, Epílogo

[8] Crowe, 1992, pp. 39-40

[9] A Second Collection, p. 277

[10] Method in Theology, New York: Herder and Herder, 1982, p. 135

[11] Toronto, 1999, CW 15.

[12] Patrick H. Byrne, “Ressentiment and the Preferential Option for the Poor,” Theological Studies 54 (1993): 241.

[13] “Why Lonergan?” por Stephen Martin,Celebração Inaugural do Seton Hall University Lonergan Institute, 16 de novembro de 2006

[14] Byrne, 1986, p. 69

[15] A recepção em Portugal de Bernard Lonergan foi iniciada no Tomo 63, 2007, fasc. 4, da Revista Portuguesa de Filosofia, Commemorating 50 Years of Insight, coordenada por J. J. Vila-Chã




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