Bernard Lonergan e a Economia

por Eileen de Neeve

tradução portuguesa de Mendo Castro Henriques (Universidade Católica, CEFi, @2012)

É natural ficar-se surpreendido ao ver o nome de Bernard Lonergan associado a escritos económicos. Afinal, as suas obras principais, Insight. Estudo da compreensão humana e Método em Teologia deram-lhe um lugar cimeiro nas bibliotecas de filosofia e teologia. O que o terá, então, atraído para a “ciência sombria” que é a economia?

Em entrevista concedida ao Instituto Thomas More, Lonergan admitiu que, entre 1930 e 1944, passou uma boa parte das suas horas livres a desenvolver uma teoria económica. [1] Em resposta às questões levantadas pela Grande Depressão, quis aprofundar o fenómeno dos ritmos da actividade económica humana e identificar os padrões e políticas necessárias para manter o equilíbrio económico dos sistemas de evolução. Os resultados das suas explorações são resumidos em dois manuscritos da época, Para uma Nova Economia Política (1942) e Um Ensaio sobre a Análise de Circulação (1944).

Após a Segunda Guerra Mundial, no entanto, os economistas interessaram-se pelo crescimento e depressão a fim de analisar o crescimento do pós-guerra, desenvolvendo ferramentas matemáticas, na esperança de prever o futuro da economia. Os manuscritos de Lonergan sobre a dinâmica da economia ficaram arquivados durante algumas décadas. Mas durante a década de 1970, com o enfraquecimento do crescimento económico, renovou-se o interesse pelo estudo dos ciclos económicos. As obras de Schumpeter e Hayek, anteriormente utilizadas por Lonergan, começam a ser muito citadas. Essa mudança de pensamento económico incentivou Lonergan, então aposentado, a continuar as pesquisas nesta área. Entre 1979 e 1983, dará seminários no Boston College sobre macroeconomia, baseado no seu Ensaio sobre a Análise de Circulação e outras investigações em curso.

Os resultados destes dois períodos de estudos económicos foram publicados pela University of Toronto Press, em Obras Completas de Lonergan, sob o título Por uma Nova Economia Política (Volume 21), edição preparada por Philip McShane em 1998 e Macroeconomic Dynamics: Um Ensaio na Análise de Circulação (volume 15), edição preparada por Patrick H. Byrne, Charles C. Hefling Jr. e Frederick G. Lawrence em 1999 O Volume 15, como o título indica, apresenta o manuscrito de 1944 e algumas extensões que Lonergan desenvolveu na década de 1970 e 1980. Este livro também situa as idéias de Lonergan na história das teorias económicas.

O Volume 21, Para uma Nova Economia Política, apresenta a obra de Lonergan em economia na década de 1940. O manuscrito de 1942 que constitui a primeira parte dá o título a todo o volume. Nele Lonergan aborda discursivamente as suas teorias económicas num contexto social.

No capítulo 1 intitulado: Por quê? O quê? Como?, Lonergan diz que qualquer ciência se desenvolve através da interação entre, por um lado, os dados observados e medidos e “a atividade construtiva da mente.” Dá o exemplo das ciências físicas para mostrar que a ciência evolui, movendo-se na direção de generalizações cada vez maiores, o que falhou na ciência económica. Lonergan começou o estudo, dizendo: “Acredito que mediante uma generalização científica da velha economia política e da economia moderna, obteremos a nova economia política de que precisamos.”

No capítulo 2, o processo puro, Lonergan estuda a atividade económica no contexto da atividade humana em geral, lembrando que qualquer atividade a não ser a atividade “puramente cultural” apresenta um factor económico. Mesmo os livros, uma vez escritos, têm que ser impressos e vendidos. Lonergan explica a relação entre o desenvolvimento dos meios de produção e a produção de bens e serviços possibilitada por esses recursos. Um agricultor tem que trabalhar mais para acrescentar uma parcela à sua propriedade e apenas beneficiará quando o novo campo der uma primeira colheita. Para Lonergan, o tempo de construção “é um elemento fundamental de inovação e crescimento económico, que sustenta as fases de economia. Emprega os conceitos de rendimentos crescentes e decrescentes para distinguir o papel na produção de processadores das novas idéias e da exploração completa dessas idéias. O impacto dos rendimentos crescentes e rendimentos decrescentes estabelece as etapas que se distinguem pela taxa de crescimento relativo na produção de bens de equipamento e bens de consumo. Dada a sua natureza mais geral ,esta análise da dinâmica da produção, tal como sugerido acima, precede o estudo da economia de mercado e do dinheiro, que Lonergan aborda no capítulo seguinte.

O Capítulo 3 elabora a distinção entre a produção de ferramentas e processos que nós não consumimos e a produção de bens e serviços para o nosso consumo, e para os quais são necessários as ferramentas e processos. Lonergan foca-se na produção para a venda, o que exige uma compreensão da propriedade, do valor de troca, por oposição a outros tipos de valores mobiliários, dos mercados onde compramos e vendemos, e das transacções de dinheiro. Excluem-se, nesta fase, a produção artística ou a produção decorrente da benevolência humana “.

Sublinhando a “excelência” da economia de mercado, Lonergan identifica os seus limites. Em si, a economia de mercado leva à desigualdade de rendimento, devido à desigualdade de competências e situações das pessoas. Lonergan apela à ciência económica para atribuir uma função às “forças da benevolência humana” na economia de mercado.

Conclui este capítulo, oferecendo uma explicação sobre o papel do dinheiro, as mudanças no valor causadas pela inflação e deflação, e a evolução da sua quantidade em função do crescimento da economia.

O Capítulo 4 parte da relação estabelecida no Capítulo 3, entre a produção, os mercados e o dinheiro, que cria o processo de troca. Lonergan apresenta o processo dinâmico de troca em uma série de equações que definem a relação entre o que é produzido (DA’, DA”) e o nível de preços (P) e quantidade (DQ) global. Separando os dois setores de produção – de um lado, edifícios e equipamentos de outros bens e serviços de consumo – Lonergan acrescenta equações sobre rendimentos (DI’, DI “) que nos permitem as despesas de consumo e ds investimento (DE’, DE”).

Lonergan aplaude a ideia de Leon Walras, que concebe os mercados como saldo da balança comercial, mas considera-a incompleta, pois não leva em conta as fases de ritmos de produção que são realizadas ao longo do tempo na implantação de crescimento e desenvolvimento. Para Lonergan, cada fase tem o seu próprio equilíbrio. Ele define quatro fases: “capitalista”, onde predomina o crescimento do investimento; materialista, quando o consumo cresce mais rápido que o investimento. Ele menciona uma terceira fase, “cultural”, mas como uma forma de fase materialista. O crescimento termina quando a economia retorna à fase “estática”, explicada pelo equilíbrio geral de Walras.

São as pessoas que escolhem onde gastam, se no consumo se no investimento. As escolha das pessoas contam para o equilíbrio da economia ao longo do desenvolvimento. As equações de Lonergan mostram que os cruzamentos dos rendimentos entre os setores de produção devem equilibrar-se, enquanto cresce a economia. Lonergan afirma a existência de uma estrutura objetiva mecânica da actividade económica. Temos de compreender essa estrutura mecânica, e o nosso comportamento económico deve adaptar-se ao longo do tempo, de modo a evitar o seu colapso.

O Capítulo 5, intitula-se “O equilíbrio da estrutura mecânica. A idéia do equilíbrio do mercado liga a despesa dos rendimentos do trabalho ao valor de troca (preço x quantidade) dos produtos vendidos e aos rendimentos dos comerciantes (produtores) a partir destas vendas. As receitas dos produtores, por sua vez, servem para contratar funcionários, pagar juros sobre os empréstimos e para pagar dividendos a acionistas e reinvestir os lucros. Estas transferências de dinheiro (objeto factício segundo Lonergan) no momento do câmbio são fatores de um movimento que pretende ser contínuo e equilibrado.

Na sua análise da circulação monetária, Lonergan identifica cinco “saldos” associados ao dinheiro. Estes saldos são mostrados no diagrama do fluxo circular. A mesma pessoa pode ter dinheiro ou crédito no interiror destes cinco saldos. Nós distinguimos os saldos pelo uso que fazemos do dinheiro. As cinco balanças desdobram-se como se segue. Dois saldos das receitas tornam-se uma procura por bens excedentes (de produção) e bens básicos (de consumo). Dois saldos são receitas de produtores que servem as despesas de produção para criar a oferta de bens e serviços de excesso e de base. O quinto saldo refere-se à função de redistribuição de Lonergan (bancos, governos, fontes de crédito internacional), pela qual dinheiro novo e novos créditos são adicionados à circulação por parte de empresários e governos que, através de suas empresas e as suas políticas, fazem crescer a economia. O dinheiro e o crédito desaparecem quando as pessoas perdem a confiança na saúde futura da economia, ou quando os governos adoptam orçamentos para reduzir os seus gastos e dívidas.

Mas como hão-de os produtores (comerciantes) dividir as suas despesas nos sectores de bens básicos e bens excedentes? Mantendo esta distinção entre a produção de bens de capital e a produção de bens de consumo, Lonergan utiliza os símbolos algébricos T’ e T”, como multiplicadores dos comerciantes. Numa economia estática, os gastos em cada setor são iguais à receita no setor entre dois períodos, de modo que o multiplicador dos comerciantes é igual à unidade. O multiplicador do comércio no sector de bens de excedente T” é maior do que a unidade durante uma fase de expansão do excedente. Durante uma fase da expansão da base o multiplicador dos comerciantes do setor de base T’ será superior à unidade. Em uma expansão, quando a despesa total exceder as receitas anteriores, a diferença deve ser composta pelos fluxos de dinheiro e crédito s, produzidos pela função de redistribuição.

Da mesma forma, como hão-de os consumidores dividir as suas despesas entre o consumo e a poupança / investimento? Lonergan utiliza os símbolos algébricos G para designar os multiplicador de distribuição G’ e G”. “Essas taxas refletem os níveis da procura potencial efetiva” Os GG são função da distribuição de rendimento. Os grupos de rendimento mais elevado poupam e investem mais. A poupança e o investimento aumentam durante a expansão do excedente, mas não ao longo da expansão de base. A distribuição de rendimentos deve, portanto, variar. No entanto, a procura real efetiva depende dos multiplicadores de consumio C’ e C”. Quando estas variáveis são maiores do que a unidade, há procura em excesso, e quando elas são inferiores à unidade, ocorre o declínio económico. Em uma expansão equilibrada, os multiplicadores de consumo são iguais à unidade e a procura é função dos multiplicadores de distribuição.

Lonergan, em seguida, analisa como os multiplicadores de produção aumentam ou permanecem constantes nas fases de expansão, mas diminuem com o declínio económico. OS Multiplicadores de produção denotam variações na oferta”. Os cruzamentos monetário entre o sector dos produtores (excedente) e o setor de consumo (base) é compensam-se em situação de equilíbrio. No entanto, numa expansão, crescem e o seu equilíbrio pode romper-se. “O processo económico pode ser arruinado pela estupidez do capital ou a estupidez de organizações sindicais, pela exigência de elevados lucros, ou exigência de salários mais altos numa fase económica em que tais procuras não se justificam. ”

Todos os multiplicadores são parte de um pacote. Quebrar a ligação entre eles é destruir o sistema. A continuidade deve manter a organização, a estabilidade dos conjuntos e das configurações das relações dinâmicas que constituem o bem-estar económico de uma sociedade. “O processo económico desenrola-se apenas nos limites do equilíbrio das várias fases”.

No capítulo 6, Lonergan explica os diferentes modos de reação de uma economia dinâmica. Primeiro, ele analisa as questões de preços durante as diferentes fases de uma expansão da produção e do crédito necessários. Os preços aumentam durante a fase de equipamentos e de obtanção de excedentes. No equilíbrio, os preços voltarão ao seu valor inicial após a expansão da produção de bens de consumo durante a fase de base.

Em segundo lugar, Lonergan concentra-se no modo como os desequilíbrios de fluxos financeiros internacionais (incluindo os relacionados com o comércio de mercadorias) e os desequilíbrios orçamentais dos governos (receitas fiscais e despesas) podem afetar a oferta e a procura dos mercados bem como a produção e os rendimentos que os alimentam.

Em terceiro lugar, Lonergan pergunta por que razão a economia não consegue chegar a esse equilíbrio de mercado após uma fase de expansão económica. Ele constata que é difícil reconhecer e aceitar o termo de uma fase de lucros extraordinários, e que a extensão dessa fase pode ser obtida mediante fluxos adicionais de dinheiro e crédito. No entanto, é na configuração de preços que reside, para Lonergan, a dificuldade principal. A variação normal dos preços em toda a fase de expansão não são bem compreendidas. Portanto, quando os preços páram de aumentar, as empresas mais fortes têm a tendência para se defender padquirindo “muito mais do que o justo quinhão da receita total.”

As pequenas empresas constatam que sofrem perdas e que terão que despedir empregados. O desemprego e as perdas de rendimento levam à queda da procura e provocam um declínio económico. “Para resolver essa crise o governo deve subsidiar as atividades industriais necessárias, assumir os bens congelados, e atenuar os efeitos do desastre, caso contrário, entrará em colapso.”

Para Lonergan, estes problemas refletem “uma falha fundamental na teoria clássica dos preços». «A teoria clássica isola o indivíduo e limita-o aos seus interesses mais elementares, mais baixos; e entrega a entidades como os sindicatos e greves, conselhos de administração, monopólios e bloqueios, a intervenção do Estado, o lobbyng, tarifas e subsídios, o nacionalismo, armamento, o imperialismo económico e a guerra, a resolução de modo injusto, estúpido e por vezes brutal dos problemas que poderiam ser resolvidos graças a uma boa teoria dos preços e um sistema adequado de preços.”

Finalmente, o capítulo termina explicando como uma economia em crescimento exige uma harmonia entre a nova procura de dinheiro e crédito em primeiro lugar, e os controles exercidos pelo sistema bancário nacional, por outro. Lonergan analisa as desvantagens de um sistema que baseia o dinheiro em uma mercadoria como o ouro e evoca um “ponto de vista que identifica o dinheiro а um sistema de contabilidade pública, que deverá ser desenvolvido e implementado, de modo que exista uma moeda cujas leis coincidam com as leis do processo económico objectivo”. Lonergan considera a possibilidade de uma economia em expansão, que não esteja necessariamente submetida a recessões periódicas.



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