“Insight” – Introdução em português

Tradução de Artur Morão e Mendo Castro Henriques

O objectivo do presente trabalho pode delimitar-se por uma série de disjunções. Primeiro, a questão não é se o conhecimento existe, mas qual é justamente a sua natureza. Em segundo lugar, embora o conteúdo do conhecimento se não possa descurar, abordar-se-á, todavia, apenas na forma esquemática e incompleta, requerida para fornecer um critério discriminante ou determinante dos actos cognitivos. Em terceiro lugar, o objectivo não visa estabelecer uma lista de propriedades abstractas do conhecimento humano, mas ajudar o leitor a efectuar uma apropriação pessoal da estrutura concreta, dinâmica, imanente e recorrentemente operativa nas suas próprias actividades cognitivas. Em quarto lugar, tal apropriação pode ocorrer apenas de forma gradual e, por isso, não se oferecerá uma apresentação abrupta do todo da estrutura, mas uma reunião morosa dos seus elementos, das suas relações, alternativas e implicações. Em quinto lugar, a ordem da reunião não se orienta por considerações abstractas da prioridade lógica ou metafísica, mas por motivos concretos de eficácia pedagógica.

O programa é, pois, concreto e prático, e os motivos para empreender a sua execução não residem no domínio das generalidades fáceis, mas no árduo recinto das matérias de facto. Se, no fim do percurso, o leitor estiver convencido desses factos, muito se terá conseguido; mas, de momento, tudo o que posso fazer é clarificar as minhas intenções, através da exposição das minhas crenças. Indago, portanto, mais a natureza do que a existência do conhecimento, porque em cada um de nós há dois tipos diferentes de conhecimento. Estão justapostos no dualismo cartesiano com o seu Cogito, ergo sum racional e com a sua extroversão inquestionável para a extensão substancial. Encontram-se separados e alienados nas subsequentes filosofias racionalistas e empiristas. Juntam-se, para de novo se anularem, no criticismo kantiano. Se estas declarações se acercam dos factos, então a questão do conhecimento humano não é se ele existe, mas quais são justamente as suas duas formas distintas e quais as relações que entre elas existem. Se esta for a questão relevante, então qualquer distanciamento em relação a ela constitui, em igual medida, o infortúnio de errar o alvo. Mas se esta é, ou não, a questão relevante, só poderá estabelecer-se empreendendo uma árdua jornada exploratória pelos muitos campos em que os homens obtiveram êxito no conhecimento ou fracassaram na tentativa de o alcançar.

Em segundo lugar, uma exposição do conhecimento não pode negligenciar o seu conteúdo, e o seu conteúdo é tão extenso que escarnece das enciclopédias e inunda as bibliotecas; o seu conteúdo é tão difícil que uma pessoa pode decerto dedicar a sua vida a dominar apenas uma parte sua; mesmo assim, porém, o seu conteúdo é incompleto e sujeito a adições ulteriores, inadequado e passível de reiteradas e futuras revisões. Não será que a viagem exploratória proposta não só é árdua, mas impossível? Seria certamente impossível, pelo menos para o escritor, se uma familiaridade com a extensão total do conhecimento fosse um requisito na presente investigação. Mas, de facto, a nossa preocupação prioritária não é o conhecido, antes o conhecer. O conhecido é extenso, mas o conhecer é uma estrutura recorrente, que se pode investigar de modo suficiente numa série de exemplos estrategicamente escolhidos. O conhecido é difícil de dominar, mas hoje especialistas competentes esforçaram-se por seleccionar para leitores sérios e lhes apresentar, de forma adequada, as componentes básicas dos vários departamentos do conhecimento. Por fim, o conhecido é incompleto e sujeito a revisão, mas a nossa preocupação é o cognoscente, que será a fonte das futuras adições e revisões.

Não será impróprio acrescentar alguns corolários, pois nada desorienta mais um leitor do que não conseguir esclarecer aquilo de que trata um livro. No fundo, este não é um livro sobre matemática, nem sobre ciência, nem sobre o senso comum, nem sobre a metafísica; de facto, em certo sentido, nem sequer é um livro acerca do conhecimento. Num primeiro nível, o livro contém asserções sobre matemática, sobre ciência, sobre o senso comum, sobre a metafísica. Num segundo nível, o sentido de todas estas asserções, a sua intenção e o seu significado, só se alcançará indo mais além dos fragmentos de matemática, de ciência, de senso comum, de metafísica, até à estrutura cognitiva, dinâmica, que no conhecimento delas se exemplifica. Num terceiro nível, a estrutura cognitiva, dinâmica, a alcançar não é o ego transcendental da especulação fichteana, nem o padrão abstracto das relações verificadas em Tom, Dick e Harry, mas a estrutura pessoalmente assimilada da experiência de cada um, da sua inquirição inteligente e das suas intelecções, da sua reflexão crítica, do seu julgar e decidir. O ponto crucial é uma questão experimental, e o experimento realizar-se-á em privado e não em público. Consistirá numa autoconsciência racional própria que, clara e distintamente, se apropria de si como autoconsciência racional. Tudo conduz a esse feito decisivo. Tudo daí se segue. Mais ninguém, seja qual for o seu conhecimento ou a sua eloquência, seja qual for o seu rigor lógico ou a sua persuasão, poderá fazê-lo por cada um de nós. Embora o acto seja privado, os seus antecedentes e as suas consequências têm a sua manifestação pública. Pode haver longas séries de sinais no papel que endereçam um convite ao conhecimento de si na tensão da dualidade do conhecimento de cada qual; e o presente livro gostaria de estar incluído entre essas séries de sinais com um significado de convite. Nem precisa de ser um segredo se tais convites são úteis ou, quando úteis, aceites. O crepúsculo do inverno não se pode confundir com o luminoso sol de meio-dia do verão.

Em terceiro lugar, pois, o objectivo do livro é, acima de tudo, emitir um convite para um acto decisivo e pessoal. Mas a natureza genuína do acto exige que ele seja entendido em si mesmo e nas suas implicações. Mas que se entende por autoconsciência racional? Que se entende por convite a tomar posse de si mesmo? Porque é que se afirma que essa posse de si mesmo é tão decisiva e importante? As questões são perfeitamente legítimas, mas a resposta não pode ser breve.

No entanto, o que conta não é a resposta em si, mas a forma como se lê. Pois a resposta só pode ser escrita em palavras; as palavras só podem derivar de definições e correlações, de análises e inferências; contudo, o ponto fulcral da presente resposta perder-se-ia, se o leitor insistisse em concluir que eu estou empenhado em estabelecer listas de propriedades abstractas do conhecimento humano. A presente obra não se deve ler como se descrevesse alguma região distante do globo, que o leitor nunca visitou, ou como se relatasse alguma experiência estranha e mística, que o leitor nunca teve. É uma explanação do conhecimento. Embora eu não possa relembrar a cada leitor as suas experiências pessoais, pode ele fazê-lo por si mesmo e, desse modo, arrancar as minhas frases gerais do esbatido mundo do pensamento para as lançar no fluxo pulsante da vida. Mais uma vez, em áreas como a matemática e a ciência da natureza, é possível delinear com algum rigor o conteúdo preciso de uma intelecção precisa; mas o fito de tal delineamento não é fornecer ao leitor uma corrente de palavras que ele possa repetir a outros, ou um conjunto de termos e relações a partir dos quais possa depois extrair inferências e estabelecer conclusões. Pelo contrário, o importante aqui, como em qualquer parte, é a apropriação; o importante é descobrir, identificar, tornar-se familiar com as actividades da inteligência pessoal; o importante é tornar-se capaz de discriminar, com facilidade e a partir da convicção pessoal, entre as suas actividades puramente intelectuais e a multiplicidade de outras preocupações ‘existenciais’ que invadem, se misturam e se combinam com as operações do intelecto, tornando-o ambivalente a ele e ambíguos aos seus assertos.

Neste passo, porém, muitos dos leitores potenciais se hão-de queixar. As ilustrações oferecidas nos primeiros cinco capítulos não se inscrevem na órbita dos seus interesses. Inteligência e razoabilidade são marcas comuns a todos os espécimes do homo sapiens. Mas a minha concentração inicial na matemática e na ciência da natureza parece restringir indevidamente o efectivo alcance do convite que faço a uma apropriação da autoconsciência racional de cada um.

Talvez uma explicação dos motivos que guiaram a minha decisão nesta matéria sirva não só para explicar o meu procedimento, mas também para habilitar cada leitor a apreciar por si próprio em que medida os capítulos iniciais se devem entender, para que ele possa beneficiar do livro como um todo. Em primeiro lugar, é essencial que a noção de intelecção, de acumulação de intelecções, de pontos de vista superiores, do seu significado heurístico e das suas implicações, não só seja apreendida de forma clara e distinta, mas também, e tanto quanto possível, identificada na experiência intelectual pessoal. A natureza precisa de tal identificação será clarificada no capítulo sobre a Auto-afirmação, porque, parece evidente, é fácil e vulgar conceber a introspecção e a experiência intelectual de um modo tal que, quando submetida a escrutínio, se apresenta como insignificante. Mais ainda, para que a elucidação do nosso conhecimento dos níveis de consciência seja inteligível, deverá ser precedida por uma apreensão, precisa e firme, de tipos sucessivos de actividade que servem para assinalar e definir os níveis sucessivos de consciência. Por sua vez, para que a apreensão dessas actividades seja clara e distinta, há então que preferir os campos de empreendimento intelectual em que o maior cuidado se dedica à exactidão e, de facto, a maior exactidão se obtém. Por esta razão, senti-me obrigado a iniciar a minha exposição da intelecção e da sua expansão com exemplos matemáticos e científicos e, embora admita que, no essencial, as mesmas actividades se podem ilustrar a partir do uso ordinário da inteligência, apelidado de senso comum, devo também reconhecer que seria impossível ao senso comum apreender e dizer o que, justamente, o senso comum pode ilustrar.

Mas considerações ulteriores não são menos eficazes. Pois o presente empreendimento visa decifrar uma ambiguidade e eliminar uma ambivalência. Santo Agostinho de Hipona conta que levou anos a descobrir que o nome real pode possuir uma conotação diferente do nome corpo. Ou, de forma mais chegada e familiar, pode afirmar-se que a ciência moderna demorou quatro séculos a descobrir que os objectos da sua inquirição não necessitavam de ser entidades imagináveis que se moviam através de processos imagináveis num espaço-tempo imaginável. O facto de Platão tentar comunicar através dos seus diálogos, o facto de Agostinho ter, afinal, aprendido de escritores a quem, de forma genérica, se refere como platónicos, perdeu o seu antigo sabor e a sua aparente irrelevância para a mente moderna. Mesmo antes de Einstein e de Heisenberg, era assaz patente que o mundo descrito pelos cientistas era estranhamente diferente do mundo representado pelos artistas e habitado pelos homens de senso comum. Mas coube aos físicos do século XX encarar a possibilidade de que os objectos da sua ciência só se podiam alcançar cortando o cordão umbilical que os unia à imaginação maternal do homem.

Como o leitor já terá adivinhado, a relevância da matemática e da física matemática para a presente indagação não é apenas a transferência da sua clareza e precisão para a exposição da intelecção, mas também o significado da transição do antigo mecanicismo para a relatividade e do antigo determinismo para as leis estatísticas. Em períodos mais antigos, o pensador a braços com o seu pensamento poderia ser auxiliado pelos diálogos de Platão e, num nível mais recôndito, poderia apelar para aquilo que E. Gilson denominaria de experiência da história na filosofia antiga, medieval e moderna. Mas, hoje, tem à sua disposição o rigor e a escala impressionante da experiência histórica complementar, que começou com a mescla de princípios científicos e de pressupostos filosóficos em Galileu e terminou com a sua acentuada segregação nos nossos dias. O que um Platão tentou comunicar através do esforço de apropriação dos seus diálogos artísticos, o que a inteligência de um Agostinho só de forma lenta dominou na angústia de uma conversão religiosa, o que levou um Descartes a um método de dúvida universal e instigou um Kant a empreender uma Crítica da Razão pura, lançou uma sombra, não menos relevante mas bem mais cortante e definida, no reino da ciência exacta. Decerto, num esforço contemporâneo para resolver a dualidade ínsita no conhecimento humano, seria um disparate ignorar, se não o mais óbvio, pelo menos o elemento mais preciso nos dados disponíveis sobre o assunto.

Mas há, também, um terceiro propósito, que espero realizar mediante uma apropriação dos modos do pensamento científico. Este pensamento é metódico, e o cientista não fixa a sua fé neste ou naquele sistema ou desfecho científico, mas na validade do próprio método científico. Mas que é, em última análise, a natureza e o fundamento do método senão uma apreensão reflexiva e uma aplicação especializada do objecto da nossa inquirição, a saber, da estrutura dinâmica, imanente e recorrentemente operativa na actividade cognitiva humana? Depreende-se assim que a ciência empírica, enquanto metódica, não só oferece um indício para a descoberta, mas também exibe exemplos concretos para o exame do dinamismo mais amplo e multiforme, que tentamos explorar. Por conseguinte, será a partir das características estruturais e dinâmicas do método científico que nos acercaremos e tentaremos fundir na unidade de uma única perspectiva elementos tão díspares como:

(1) a questão de Platão ao perguntar como é que o inquiridor reconhece a verdade quando chega àquilo que, enquanto investigador, não conhecia,

(2) o significado intelectualista (embora não conceptualista) da abstracção da forma a partir das condições materiais,

(3) a manifestação psicológica do desejo natural, segundo Tomás de Aquino, de conhecer Deus na sua essência,

(4) o que Descartes se esforçou por transmitir no seu incompleto tratado, Regulae ad directionem ingenii,

(5) o que Kant concebeu como síntese a priori, e

(6) o que é apelidado de finalidade do intelecto no amplo trabalho de J. Maréchal sobre Le point de départ de la métaphysique.

Tenho estado a insistir na gravidade dos motivos que me levaram a iniciar este ensaio em prol da apropriação de si, com o escrutínio da física matemática. Mas, para evitar o exagero, devo apressar-me a acrescentar que o significado do escrutínio é, por assim dizer, mais psicológico que lógico. Pois o presente trabalho divide-se em duas partes. Na primeira, a intelecção é estudada como uma actividade, como um acontecimento que ocorre em diversos padrões de outros eventos relacionados. Na segunda parte, a intelecção é estudada como conhecimento, como um acontecimento que, sob determinadas condições, revela um universo do ser. A primeira trata da questão: Que acontece quando conhecemos? A segunda dirige-se para a questão: Que se conhece quando tal acontece? Se não houvesse nenhum problema psicológico, a primeira parte poderia reduzir-se a conjuntos de definições e de clarificações, visto que, de um ponto de vista lógico, o primeiro juízo que ocorre em toda a obra é o juízo de auto-afirmação, no capítulo onze. Mas o facto firme é que o problema psicológico existe, que há no homem dois tipos diferentes de conhecimento, que eles existem sem diferenciação e numa confusão ambivalente até que sejam explicitamente distinguidos e as implicações da distinção sejam explicitamente extraídas. O facto firme é que o problema psicológico pessoal se não pode resolver mediante o vulgar procedimento de afirmar as proposições que são verdadeiras e de negar as proposições que são falsas, porque o verdadeiro significado das proposições verdadeiras tende a ser sempre mal compreendido por uma consciência que ainda não descobriu a sua necessidade de conhecer o que a Agostinho levou anos, e à ciência moderna levou séculos, a descobrir.

Falta ainda dizer algo sobre as duas últimas das cinco disjunções pelas quais nos propusemos escorar o objectivo deste livro. Como se advertiu, não nos preocupamos com a existência do conhecimento, mas com a sua natureza, não com o que se conhece mas com a estrutura do conhecer, não com as propriedades abstractas do processo cognitivo mas com uma apropriação pessoal da estrutura dinâmica e recorrentemente operativa da actividade cognitiva de cada um. Há que explicar agora a quarta disjunção, visto que o trabalho da auto-apropriação não pode ocorrer num único salto. No essencial, é um desenvolvimento do sujeito e no sujeito e, como todo o desenvolvimento, pode ser sólido e fecundo só se for árduo e lento.

Ora bem, seria absurdo oferecer ajuda a um processo de desenvolvimento e, contudo, escrever como se o desenvolvimento integral fosse já um facto cumprido. Um professor de geometria pode estar convencido de que todo o Euclides está contido na teoria da multiplicidade n-dimensional de qualquer curvatura. Mas não conclui que Euclides se deve omitir do programa elementar e que os seus alunos hão-de começar a partir do cálculo dos tensores. Pois, embora Euclides seja um caso particular, todavia, o caso particular é o único que faculta o acesso ao caso geral. E mesmo que as proposições euclidianas exijam qualificação quando se alcança o contexto mais geral, ainda assim um bom professor não distrai os seus alunos com qualificações que eles entendem apenas de forma vaga, quando é ofício seu juntá-los, o melhor que puder, através da pons asinorum [‘ponte dos burros’].

De igual modo, este livro é escrito, não de cima para baixo, mas debaixo para cima. Qualquer conjunto coerente de enunciados se pode dividir em definições, postulados e conclusões. Mas não se segue que, entre as capas de um único livro, tenha de haver um único conjunto coerente de enunciados. Pois o livro singular pode ser escrito a partir de um ponto de vista móvel e, então, conterá não um simples conjunto de enunciados coerentes, mas uma sequência de conjuntos relacionados de enunciados coerentes. Além disso, como é evidente, um livro projectado para ajudar um desenvolvimento deve ser escrito a partir de um ponto de vista móvel. Não pode começar por pressupor que um leitor consegue assimilar de uma só vez o que só se pode alcançar no termo de um esforço prolongado e árduo. Pelo contrário, deve começar por um ponto de vista mínimo e num contexto mínimo; explorará esse mínimo para, em seguida, levantar uma questão que aumente o ponto de vista e o contexto; avançará com o ponto de vista e o contexto alargados só enquanto for necessário levantar questões mais profundas que, de novo, transformam as bases e os termos de referência da investigação; e, claro, este estratagema pode repetir-se, não só uma ou duas vezes, mas tantas vezes quantas forem necessárias para alcançar o ponto de vista universal e o contexto integralmente concreto que abarca todos os aspectos da realidade.

Contudo, se tão-só este procedimento for apropriado para o objectivo do presente trabalho, devo realçar, de uma vez por todas, que as suas implicações se não devem descurar. Se Espinosa escreveu a Ética de acordo com o que no seu tempo se pensava ser o estilo geométrico, não se inferirá que estou a tentar seguir os seus passos, que nunca ouvi falar do teorema de Gödel, que não estou a operar a partir de um ponto de vista móvel, que sucessivamente estabelece contextos só para ir além deles. Se a inferência não houver de se fazer, as implicações ulteriores de tal inferência não se devem assumir. As premissas a partir das quais se pode deduzir a minha própria posição não estão completas na primeira secção do primeiro capítulo, quando uma breve descrição tenta fixar o significado do nome, intelecção. O contexto é ampliado, mas não completado, quando um estudo do desenvolvimento matemático torna a noção de intelecção mais precisa. Existe o contexto mais amplo do mundo matematizado dos eventos, que surgiu no fim do quinto capítulo, mas tem de ser incluído no contexto ainda mais amplo do mundo do senso comum, que é descrito nos capítulos sexto e sétimo. O capítulo oitavo acrescenta coisas que, apesar de previamente negligenciadas, nunca foram negadas. O nono e décimo capítulos acrescentam a reflexão e o juízo, que não se excluíram das considerações iniciais, nem, por outro lado, lhes foi possível entrar de forma sistemática. No décimo primeiro capítulo, surge o primeiro juízo da auto-afirmação, mas só no décimo segundo capítulo se assere que esse juízo é conhecimento, e só no décimo terceiro capítulo se explica em que sentido tal conhecimento se deve dizer objectivo. Seguem-se os quatro capítulos sobre metafísica para esquadrinhar tudo o que se divisou na unidade de uma perspectiva mais ampla, apenas para sofrerem um destino similar, primeiro, na exposição do conhecimento transcendente geral, e, de novo, na abordagem ao conhecimento transcendente especial.

Decerto, se surgisse alguém para expressar o meu significado de modo mais sucinto do que eu consegui, deveria lembrar-se de que os enunciados iniciais têm de ser qualificados e interpretados à luz de enunciados ulteriores.

E não é tudo. Pois já se advertiu que o presente trabalho se ocupa do conhecido apenas de modo esquemático e incompleto que é necessário para clarificar a natureza e afirmar a existência de diferentes departamentos do conhecimento. Esta qualificação extremamente geral deve combinar-se com a qualificação de asserções iniciais por outras ulteriores e, sugiro eu, a combinação pode efectuar-se de forma sistemática da seguinte maneira.

O teorema de Gödel estabelece que qualquer conjunto de definições e postulados matemáticos dão origem a questões ulteriores que não podem ser respondidas com base nas definições e nos postulados. Considere-se, então, uma série de conjuntos de definições e postulados, digamos P, Q, R, …, tais que, se P for assumido, surgem questões que se podem responder apenas pela assunção de Q, se Q for assumido, surgem questões que se podem responder pela assunção R, e assim sucessivamente. Então, além dos sucessivos contextos inferiores P, Q, R, … existe também o contexto mais elevado em que o teorema de Godel se expressa. Além disso, atendendo a que o teorema é bastante general, o contexto superior é independente do conteúdo de quaisquer contextos particulares como P, Q, R, … Por fim, visto que não existe nenhum contexto inferior último que seja definitivo, visto que R exigirá um contexto S, e S um contexto T, e T um contexto U, e assim indefinidamente, o contexto realmente significativo é o contexto superior; todos os contextos inferiores P, Q, R, S, T, U, … são provisórios; e só alcançam um significado definitivo na medida em que dão acesso ao contexto mais elevado.

Ora, vamos além do teorema de Gödel, não em direcção a uma maior abstracção, mas em direcção a uma maior concreção, e não para uma maior concreção do lado do objecto (que é vasto, difícil, e aberto a adições e revisões ulteriores), mas para uma maior concreção no lado do sujeito. Além do noema, ou intentio intenta, ou pensée pensée, ilustrado pelos contextos inferiores P, Q, R, … e pelo contexto superior que é o teorema de Gödel, há também a noesis, ou intentio intendens, ou pensée pensante, que é constituída pela própria actividade de investigar e reflectir, compreender e afirmar, levantar novas questões e alcançar respostas ulteriores. Digamos que esta actividade noética está envolvida num contexto inferior ao fazer matemática, ao seguir o método científico ou ao exercer o senso comum. Em seguida, mover-se-á para um contexto superior, quando examina a matemática, a ciência ou o senso comum, a fim de apreender a natureza da actividade noética. E se chegar a compreender e a afirmar o que é a compreensão e a afirmação, então alcançou um contexto superior, que é logicamente independente do tablado da matemática, da ciência e do senso comum. Além disso, se for possível demonstrar que o contexto superior é invariante, então qualquer tentativa para revê-lo só se pode legitimar, se o hipotético revisor rejeitar a sua própria tentativa, invocando a experiência, a compreensão e a reflexão de uma forma já prescrita; revelar-se-á então que, embora o noema, ou a intentio intenta ou a pensée pensée, se possa expressar sempre com maior rigor e completude, contudo a estrutura imanente e recorrentemente operativa da noesis, ou da intentio intendens ou da pensée pensante, deve ser sempre uma só e a mesma.

Por outras palavras, não estamos apenas a escrever a partir de um ponto de vista móvel, estamos, de igual modo, a escrever acerca de um ponto de vista móvel. Não são só as asserções iniciais devem ser qualificadas por asserções ulteriores, mas também a qualificação posterior estabelece que as asserções iniciais tendem a ser simples andaimes que se podem sujeitar a uma revisão infinda, sem implicar a necessidade de qualquer revisão da apropriação pessoal da autoconsciência intelectual e racional própria.

Em quinto lugar, para abordarmos a disjunção final, a ordem em que o ponto de vista móvel reúne os elementos para uma apropriação da autoconsciência intelectual e racional própria é regida, não por considerações de prioridade lógica ou metafísica, mas por considerações de eficácia pedagógica.

Ora bem, esta quinta disjunção seria supérflua, se não conseguisse antecipar que, entre os leitores potenciais, poderá haver homens já na posse de um esquema lógico ou metafísico das coisas. Por conseguinte, embora a regra constante da presente obra seja lidar com problemas na sua generalidade justa e no seu espaço e tempo adequados, afigura-se necessário abandonar, por um momento, esta regra para arrostar alguns dos pontos, a cujo respeito os lógicos ou os metafísicos acharão claramente que, a partir dos seus critérios já estabelecidos, eu me encontrarei no trilho errado.

De um ponto de vista lógico, parece que já se disse o suficiente, mas há dois pontos que merecem uma atenção especial. No decurso do capítulo XIV ou, pelo menos, no capítulo XVII, o leitor estará apto a abarcar, numa única visão coerente, a totalidade das posições contraditórias no conhecimento, na objectividade e na realidade. Mas semelhante perspectiva é dialéctica ou meta-lógica. Não pode ser suscitada pelas artes lógicas da definição, da postulação e da inferência. Pode ser mediada por um livro, só na medida em que houver uma comunicação de intelecções que, de uma forma remota, é análoga à evocação de imagens ou à sugestão de sentimentos. Por isso, em especial nos primeiros dez capítulos, que se debruçam sobre a génese dos conceitos e dos juízos, dos termos e das proposições, o único veículo possível para o conteúdo essencial da nossa análise é o modo pré-lógico e, até, pré-conceptual de comunicação.

Em segundo lugar, o nosso objectivo é a intelecção da intelecção, e este objectivo alcança-se na medida em que a intelecção visada desponta numa série diferenciada de intelecções ilustrativas. Mas as intelecções ilustrativas devem ser elementares. Não podemos reproduzir tratados inteiros, e se pudéssemos e o fizéssemos, anularíamos o nosso propósito. As nossas ilustrações têm, pois, de ser intelecções simples despidas do seu contexto de ulteriores intelecções complementares que corrigem, qualificam, ajustam e apuram. Ora bem, este desnudamento torturará os leitores especialistas. Se de todo não apreenderem a nossa perspectiva, talvez se convençam até de que a própria intelecção é tão superficial quanto as nossas ilustrações. Contudo, os especialistas têm no seu entendimento próprio o remédio para essa tortura, porque podem sempre trazer à luz as intelecções complementares, questionando-se a si mesmos porque é que as nossas ilustrações são insatisfatórias. Além disso, se o fizerem, podem avançar rapidamente para uma intelecção da intelecção; mas se apenas resmungam e dizem que este conjunto de palavras é falso e que este conjunto é enganador, arriscam-se a encorajar um equívoco sobre a intelecção e até uma fuga à compreensão.

Das considerações lógicas virar-se para as considerações metafísicas é arrostar um círculo inteiramente diverso de leitores possíveis. Entre os Escolásticos contemporâneos há um acordo amplo sobre problemas metafísicos e, ao mesmo tempo, uma divergência fortemente contrastada sobre questões epistemológicas. Esta disparidade pode impingir ao meu trabalho uma aparência de caturrice porque, em vez de abordar o que é duvidoso a partir do que é seguro, eu começo pelo conhecimento e chego à metafísica apenas como conclusão.

Contudo, estou longe da certeza de ser esta uma perspectiva correcta. O consenso alargado dos Escolásticos na metafísica corresponde a um consenso igualmente amplo na epistemologia, e a divergência das concepções escolásticas na epistemologia corresponde a uma mole não menos impressionante de questões disputadas na metafísica. Depreende-se assim que o problema real consiste em progredir desde um simples acordo alargado na metafísica e na epistemologia para um acordo preciso e minucioso em ambas; e para esse fim, a nossa tentativa é um meio óbvio para alcançar uma visão refrescante e mais plena dos factos relevantes.

Para concluir, o nosso objectivo tem em mira: (

1) não o facto do conhecimento, mas uma discriminação entre dois factos do conhecimento,

(2) não os pormenores do conhecido, mas a estrutura do conhecer,

(3) não o conhecer como um objecto caracterizado por catálogos de propriedades abstractas, mas a apropriação da autoconsciência intelectual e racional própria,

(4) não um súbito salto para a apropriação, mas um lento e árduo desenvolvimento, e

(5) não um desenvolvimento indicado pelo apelo quer à lógica do objectivo ainda desconhecido quer à pressuposta e ainda inexplicada metafísica ontologicamente estruturada, mas um desenvolvimento que pode ter início em qualquer consciência assaz cultivada, que se expande em virtude das tendências dinâmicas desta própria consciência, e que almeja, através de uma compreensão de toda a compreensão, uma compreensão fundamental de tudo o que se pode entender.

A última frase retine como um mote publicitário e, de modo assaz feliz, resume o conteúdo positivo desta obra. Entende perfeitamente o que é entender, e não só compreenderás as linhas amplas de tudo o que há para entender, mas também ficarás na posse de uma base sólida, de um padrão invariante, de uma abertura para todos os ulteriores desenvolvimentos da compreensão.

Pois a apropriação da autoconsciência racional própria, que tão realçada foi nesta Introdução, não é um fim em si mesma, mas antes um começo. É um início necessário porque, a não ser que alguém elimine a dualidade no seu conhecer, se duvida que entender correctamente seja conhecer. Sob a pressão dessa dúvida, ou se afunda no lodaçal de um conhecer desprovido de compreensão, ou se adere à compreensão, mas sacrificando o conhecer no altar de um imanentismo, de um idealismo, de um relativismo. Dos cornos deste dilema só se escapa através da descoberta (e ninguém ainda a fez, se não tiver uma clara lembrança da sua estranheza inicial) de que há dois realismos inteiramente distintos, que há um realismo incoerente, semi-animal e semi-humano, que se situa a meio caminho entre o materialismo e o idealismo, e que há, por outro lado, um realismo inteligente e razoável, entre o qual e o materialismo, a posição intermédia é o idealismo.

O início é, pois, não só o autoconhecimento e a auto-apropriação, mas também um critério do real. Se para se convencer a si mesmo que conhecer é compreender, alguém assere que saber matemática é compreender, que saber ciência é compreender, e saber senso comum é compreender, acaba-se não só numa exposição circunstanciada da compreensão, mas também num plano do que há para se conhecer. As várias ciências perdem o seu isolamento recíproco; o hiato entre ciência e senso comum é colmatado; a estrutura do universo proporcionado ao intelecto humano é revelada; e como esta estrutura revelada faculta um objecto à metafísica, então a autocrítica inicial fornece um método para explicar como surgem as afirmações metafísicas e antimetafísicas, para seleccionar as que estão correctas e para eliminar aquelas que visivelmente nascem de uma penúria de autoconhecimento preciso. Ademais, tal como a metafísica deriva da estrutura conhecida do conhecer pessoal, também uma ética provém do conhecimento da estrutura composta do nosso conhecer e fazer; e tal como a metafísica, também a ética prolonga a autocrítica inicial para uma explanação da origem de todas as posições éticas e para um critério de avaliação de cada uma delas. Isto não é tudo. Persistem ainda questões ulteriores prementes. Poderiam ser ignoradas, se o conhecer não fosse compreensão, ou se a compreensão fosse compatível com o obscurantismo que, de forma arbitrária, deixa as questões de lado. Mas o conhecer é compreensão, e a compreensão é incompatível com a obscuridade que, de forma arbitrária, põe de lado as questões. Há que arrostar o problema do conhecimento transcendente. Pode o homem conhecer mais do que a inteligibilidade imanente no mundo da experiência possível? Se sim, como poderá concebê-lo? Se pode concebê-lo, como poderá afirmá-lo? Se pode afirmá-lo, como poderá reconciliar essa afirmação com o mal que tortura tantos corpos humanos, entenebrece tantas mentes humanas, endurece tantos corações? Tais são as questões dos dois últimos capítulos, mas comentários ulteriores sobre as respostas apresentadas serão mais inteligíveis num Epílogo do que numa Introdução.

Como, em breve, o leitor irá descobrir, este não é um trabalho erudito. Antes de toda a escrita da história, antes de toda a interpretação de outras mentes, existe o auto-exame do historiador, o auto-conhecimento do intérprete. Esta tarefa prioritária é a minha preocupação. É um interesse que tem as suas origens e o seu enquadramento, as suas dependências e filiações; talvez valesse a pena referi-los; mas valeria a pena referi-los, só em atenção à preocupação antecedente; e só seriam correctamente interpretados, se a preocupação prévia fosse bem sucedida em realizar a tarefa prioritária.

Assim sendo, as minhas referências são escassas e desnecessárias. Na análise da ciência empírica, achei útil seleccionar um só livro em que o leitor pudesse encontrar uma exposição dos tópicos que emergiram; por esta razão, e sem qualquer intenção de sugerir uma única autoridade, refiro-me habitualmente à obra de Lindsay e Margenau, com frequência reeditada sob o título Foundations of Physics. Disseminados ao longo da obra, surgirão asserções arrojadas sobre as concepções de vários pensadores. Poderei expressar a esperança de que elas não causem muita celeuma? Como a longa discussão sobre a verdade da interpretação no capítulo XVII revelará, dificilmente aspiram a ser veredictos pronunciados pelo tribunal da história, cujos processos funcionam com muito mais delongas do que o pior dos tribunais. O seu significado primário é apenas o de uma forma abreviada de discurso que terá boas possibilidades de comunicar de forma rápida o que, de outro modo, dificilmente seria dito. Talvez a esse significado primário se pudesse acrescentar a sugestão de que, na medida em que os princípios desta obra forem aceites, o significado por nós realçado poderá providenciar um ponto de partida para investigações posteriores.

Na introdução ao seu Tratado da Natureza Humana, David Hume escreveu que não se conquista um território, ocupando um posto aqui e uma cidade ou vila ali, mas, ao invés, avançando directamente para a capital e assaltando a sua cidadela. Contudo, a estratégia correcta é uma coisa, a sua execução bem sucedida é outra; mesmo após a campanha mais bem sucedida, persiste a tarefa demorada de limpeza, de organização e de consolidação. Se eu for assaz destemido para acreditar que abordei um conjunto de ideias de importância fundamental, não posso deixar de reconhecer que não possuo os recursos para oferecer uma exibição irrepreensível das suas implicações na ampla variedade dos campos em que elas são relevantes. Posso apenas oferecer o contributo de um só homem e, em seguida, esperar que outros, sensíveis aos mesmos problemas, reconheçam que os meus esforços abreviam o seu próprio trabalho e que as minhas conclusões fornecem uma base para ulteriores desenvolvimentos.

[1] [Lonergan pode estar-se a referir às questões levantadas em Meno, 80e-86c.]

[2] [Tomás de Aquino, Summa theologiae, 1-2, q.3, a.8.]

[3] [Joseph Marechal, Le point de départ de la métaphysique, 5 vols. (Paris: Desclée de Brouwer, 1944-49).]

[4] [Robert Bruce Lindsay e Henry Margenau, Fundações da Física (Woodbridge, CT: Ox Bow Press, 1981, reimpresso em 1936 [John Wiley e filhos] e 1957 [Publicações Dover] edições).]


About this entry