“Insight” – Prefácio em português

Tradução portuguesa de Atur Morão e Mendo Castro Henriques

Na novela policial ideal o leitor dispõe de todas as pistas necessárias e, todavia, não descobre o criminoso. Aperceber-se-á talvez de cada pista, à medida que ela surge. Não precisa de mais indícios para desvendar o mistério. Pode, no entanto, persistir na escuridão, porque a solução não reside na mera apreensão de cada pista, não se restringe à memorização de todas, mas é uma actividade distintiva da inteligência organizadora, que coloca o conjunto das pistas sob uma perspectiva explanatória única.

Por intelecção entende-se, pois, não qualquer acto de atenção, advertência ou memória, mas um acto superveniente de compreensão. Não é uma intuição recôndita, mas o acontecimento habitual que ocorre com facilidade e frequência no moderadamente inteligente, raras vezes e dificilmente no muito estúpido. Em si mesma é tão simples e óbvia que parece merecer a escassa atenção que comummente se lhe concede. Ao mesmo tempo, a sua função é tão central na actividade cognitiva que captá-la nas suas condições, no seu funcionamento e nos seus resultados, é conferir uma unidade básica, mas surpreendente, a todo o campo da investigação e opinião humanas. Esta real riqueza de implicações é deveras desconcertante, e tenho dificuldade em enunciar, de forma sucinta e fácil, o fito da presente obra, e como é que um único autor tenciona abordar a variedade de tópicos enumerados no índice, porque tenta fazê-lo num único trabalho, e o que espera alcançar de positivo se, de facto, conseguir ser bem sucedido neste empreendimento algo extravagante.

Por outro lado, um prefácio deve, no mínimo, fornecer uma resposta sumária e simples a tais questões, e eu posso, porventura, começar por afirmar que o objectivo da obra é levar a uma intelecção sobre a intelecção. Os matemáticos buscam intelecções sobre conjuntos de elementos. Os cientistas procuram intelecções sobre séries de fenómenos. As pessoas de senso comum demandam intelecções sobre situações concretas e afazeres práticos. A nossa preocupação é chegar ao acto da inteligência organizadora que integra numa perspectiva única as intelecções dos matemáticos, dos cientistas e das pessoas de senso comum.
Depreende-se logo que os tópicos arrolados no índice não são tão discrepantes como se afigura a uma leitura superficial. Se alguém desejar tornar-se matemático, cientista ou pessoa de senso comum, não extrairá nenhum proveito directo do presente trabalho. Tal como os físicos estudam a forma das ondas e deixam para os químicos a análise do ar e da água, também nós não nos interessamos pelos objectos conhecidos na matemática, mas pelos actos de compreensão dos matemáticos, não pelos objectos conhecidos nas várias ciências, mas pelos actos de compreensão dos cientistas, não pelas situações concretas dominadas pelo senso comum, mas pelos actos de compreensão da pessoa de senso comum.

Além disso, embora todos os actos de compreensão possuam um certo ar de família, só se obtém uma visão plena e equilibrada combinando numa única explicação os dados obtidos a partir de diferentes campos da actividade inteligente. Assim, a natureza precisa do acto de compreensão ver-se-á de modo mais claro nos exemplos matemáticos. O contexto dinâmico em que ocorre a compreensão pode estudar-se, com melhor resultado, indagando os métodos científicos. A perturbação deste contexto dinâmico por preocupações estranhas introduz-se na atenção de alguém pela forma como as várias medidas de contra-senso habitual se mesclam com o senso comum.

No entanto, a intelecção não é apenas uma actividade intelectual, mas também um factor constituinte do conhecimento humano. Uma intelecção sobre a intelecção é portanto, de certo modo, um conhecimento do conhecimento. É, de facto, um conhecimento do conhecimento que se afigura extremamente relevante para uma série inteira de problemas básicos da filosofia. Tal é o que agora devo mostrar, embora só o consiga fazer da forma abrupta e sumária que deixa termos por definir e oferece argumentos que não chegam a ser uma prova.

Em primeiro lugar, a intelecção é que faz a diferença entre o problema torturante e a solução evidente. As intelecções parecem, pois, ser a fonte daquilo que Descartes apelidou de ideias claras e distintas, pelo que a intelecção da intelecção seria a fonte da ideia clara e distinta de ideias claras e distintas.
Em segundo lugar, por ser o acto da inteligência organizadora, a intelecção é uma apreensão de relações. Mas entre as relações há significados, pois o significado parece ser uma relação entre signo e significado. A intelecção contém, pois, apreensões de significado, e a intelecção da intelecção inclui a apreensão do significado do significado.
Em terceiro lugar, num sentido algo diferente do de Kant, toda a intelecção é a priori e sintética. É a priori, porque vai além do que é simplesmente dado aos sentidos ou à consciência empírica. É sintética, porque acrescenta ao meramente dado uma organização ou unificação explicativa. Segue-se, aparentemente, que a intelecção da intelecção proporcionará uma explicação sintética e a priori da série completa de componentes sintéticas e a priori da nossa actividade cognitiva.
Em quarto lugar, uma unificação e organização dos outros departamentos do conhecimento é uma filosofia. Mas toda a intelecção unifica e organiza. A intelecção da intelecção unificará e organizará, então, as intelecções dos matemáticos, dos cientistas e das pessoas de senso comum. Segue-se, aparentemente, que a intelecção da intelecção suscitará uma filosofia.
Em quinto lugar, não é possível unificar o conhecimento, sem desembocar numa unificação e organização do conhecido. Mas uma unificação e organização do conhecido na matemática, nas ciências e no senso comum é uma metafísica. Portanto, na medida em que esta intelecção da intelecção unifica e organiza todo o nosso conhecimento, implicará uma metafísica.
Em sexto lugar, a filosofia e a metafísica resultantes da intelecção sobre a intelecção serão verificáveis. Assim como as intelecções científicas emergem e se verificam nas cores e nos sons, no gosto e nos odores da experiência comum, assim também a intelecção da intelecção se verifica nas intelecções dos matemáticos, dos cientistas e das pessoas de senso comum. Mas se a intelecção da intelecção é verificável, então a filosofia e a metafísica consequentes serão igualmente verificáveis. Por outras palavras, assim como se pode demonstrar que todo o enunciado na ciência teorética implica asserções sobre o facto sensível, assim também se pode demonstrar que cada asserção da filosofia e da metafísica implica enunciados sobre o facto cognitivo.
Em sétimo lugar, além das intelecções, há também lapsos de inteligência. Além do contexto dinâmico da investigação livre e desinteressada em que as intelecções emergem com notável frequência, há também os contextos dinâmicos opostos de fuga à compreensão, em que os descuidos ocorrem de modo regular e, quase se poderia dizer, sistemático. Para que a intelecção sobre a intelecção não seja um equívoco sobre equívocos, deve incluir uma intelecção sobre os principais expedientes da fuga à compreensão.
Em oitavo lugar, não se deve considerar a fuga à compreensão como uma aberração peculiar que só aflige os desafortunados ou os perversos. Na sua forma filosófica, que se não deve confundir com as manifestações psiquiátricas, morais, sociais e culturais, parece resultar, simplesmente, de um desenvolvimento incompleto no uso inteligente e razoável da nossa própria inteligência e razão. Mas embora a sua origem seja uma simples ausência de desenvolvimento completo, as suas consequências são bastante notórias. A fuga à compreensão bloqueia a ocorrência de intelecções que poderiam contrariar o seu cómodo equilíbrio. Não se satisfaz com uma resistência passiva. Embora secreta e tortuosa, a fuga à compreensão tem recursos, é inventiva, eficaz e extraordinariamente plausível. Admite muitas formas e, quando algumas se revelam inconsistentes, recorre a outras. Nunca lhe faltam posições superficiais para fornecer mentes superficiais, e é deveras competente para elaborar uma filosofia tão perspicaz e profunda que os eleitos procuram, durante séculos e em vão, revelar as suas reais inadequações.
Em nono lugar, tal como a intelecção sobre a intelecção produz uma ideia clara e distinta das ideias claras e distintas; tal como inclui uma apreensão do significado do significado; tal como apresenta a série das componentes sintéticas a priori do nosso conhecimento; tal como implica uma unificação filosófica das matemáticas, das ciências e do senso comum; tal como implica uma relação metafísica do que se deve conhecer através de várias disciplinas da inquirição humana; também a intelecção sobre as diversas formas de fuga à compreensão explicará:

(1) a extensão de ideias aparentemente claras e distintas, mas realmente confusas;
(2) as visões aberrantes do nosso conhecimento;
(3) as distorções das componentes sintéticas a priori no nosso conhecimento;
(4) a existência de uma multiplicidade de filosofias; e
(5) a série de posições metafísicas e antimetafísicas erróneas.

Em décimo lugar, de tudo isto parece resultar a possibilidade de uma filosofia simultaneamente metódica, crítica e abrangente. Será abrangente, porque abarca numa única visão cada enunciado de cada filosofia. Será crítica, porque discrimina entre os produtos do desejo livre e desinteressado de compreender e, por outro lado, os produtos da fuga à compreensão. Será metódica, porque transpõe os enunciados dos filósofos e dos metafísicos para as suas origens na actividade cognitiva, e estabelece se essa actividade é, ou não, aberrante ao apelar, não para os filósofos ou os metafísicos, mas para as intelecções, os métodos e procedimentos de matemáticos, cientistas e pessoas de senso comum.

O presente trabalho propõe-se, pois, operar a três níveis: é um estudo da compreensão humana; revela as implicações filosóficas da compreensão; é uma campanha contra a fuga à compreensão. Estes três níveis são solidários. Sem o primeiro, não havia bases para o segundo nem significado preciso para o terceiro. Sem o segundo, o primeiro não iria além de indicações elementares, e não havia qualquer saída para o terceiro. Finalmente, sem o terceiro nível, o segundo seria considerado inconcebível, e o primeiro seria negligenciado.
Provavelmente, replicar-me-ão que tentei operar numa frente demasiado ampla. Mas fui obrigado a fazê-lo por dois motivos. Tanto na construção de uma embarcação como de uma filosofia, tem de se ir até às últimas consequências; um esforço incompleto equivale a um falhanço. Além disso, contra a fuga à compreensão não bastam meias medidas. Só uma estratégia abrangente pode ter sucesso. Negligenciar qualquer refúgio da fuga à compreensão é deixar intacta uma base, a partir depressa se lançará uma contra-ofensiva.

Mas mesmo que estas considerações sejam aceites, continuará a dizer-se que o meu intento só poderia ser executado de forma correcta através da pesquisa organizada de especialistas em áreas distintas. Admito, decerto, esta observação. Estou longe de possuir competência na maioria das áreas em que as intelecções ocorrem, e não posso deixar de saudar a impressionante reunião de talento e a confortável atribuição de fundos que se associam a projectos de investigação. Todavia, não estou comprometido no que correntemente se entende por investigação. O meu objectivo não é fazer progredir a matemática nem contribuir para qualquer dos ramos especializados da ciência, mas demandar um terreno comum onde homens de inteligência se possam encontrar. Pareceu-me que o terreno comum que visionei permanecia algo inacessível numa altura em que nem matemáticos, nem cientistas, nem homens de senso comum apresentavam grande articulação sobre o tema da intelecção. O que importava empreender era uma jornada exploratória preliminar numa área infelizmente negligenciada. Só depois de os especialistas das diferentes áreas terem a oportunidade de descobrir a existência e o significado das suas intelecções é que poderia emergir a esperança de que alguns deles vislumbrassem o meu intento, onde a minha expressão fosse deficiente, corrigissem os meus erros, onde a minha ignorância falseasse o meu raciocínio, e preenchessem com a riqueza do seu conhecimento as estruturas formais, mas dinâmicas, que tentei erigir. Só na medida em que esta esperança se realizar, terá início a colaboração espontânea que, comummente, precede os planos pormenorizados de uma investigação organizada.

Subsiste uma questão: que utilidade prática pode resultar deste livro? A resposta é mais directa do que se poderia esperar, porque a intelecção é a fonte não só do conhecimento teórico, mas também de todas as suas aplicações práticas e, aliás, de toda a actividade inteligente. A intelecção sobre a intelecção revelará, então, que actividade é inteligente, e a intelecção sobre os equívocos revelará que actividade é desprovida de inteligência. Mas ser prático é fazer coisas inteligentes, e não ser prático é persistir no erro a seu respeito. Portanto, a intelecção sobre a intelecção e os equívocos é a chave genuína para a praticabilidade.

A intelecção sobre a intelecção traz assim à luz o processo acumulativo do progresso. As situações concretas originam intelecções que redundam em directrizes e percursos de acção. A acção transforma a situação existente para suscitar novas intelecções, melhores directrizes e acções mais eficazes. Segue-se que se a intelecção ocorrer, será recorrente; e em cada recorrência, o conhecimento desenvolve-se, a acção intensifica o seu alcance e as situações melhoram.

De modo semelhante, a intelecção dos erros e equívocos revela o processo cumulativo de declínio. A fuga à compreensão entrava as intelecções exigidas pelas situações concretas. Emergem então directrizes desprovidas de inteligência e cursos de acção desajustados. A situação deteriora-se, exige constantemente outras intelecções que, à medida que são bloqueadas, tornam mais obtusas as directrizes e mais inepta a acção. Pior ainda, a situação em vias de deterioração parece fornecer à mente acrítica e preconceituosa provas factuais de que o pretenso preconceito se verifica. Assim, em medida sempre crescente, a inteligência acaba por ser considerada como irrelevante para a vida prática. A actividade humana amolda-se a uma rotina decadente, e a iniciativa torna-se privilégio da violência.
Infelizmente, tal como a intelecção e o erro convivem de modo habitual, também o progresso e o declínio andam a par. Reforçamos o nosso amor à verdade com uma praticabilidade, que equivale a um obscurantismo. Corrigimos males velhos com uma paixão que desfigura o novo bem. Não somos puros. Fazemos compromissos. Esperamos desenrascar-nos. Mas o progresso genuíno do conhecimento traz consigo um poder sobre a natureza e sobre os homens demasiado vasto e aterrador para ser confiado às boas intenções de mentes inconscientemente preconceituosas. Temos de aprender a distinguir, de forma clara, entre progresso e declínio, aprender a estimular o progresso sem encorajar o declínio, aprender a remover o tumor da fuga à compreensão sem destruir os órgãos da inteligência.
Mas nenhum problema é, à partida, mais melindroso e mais profundo, mais prático e, porventura, mais urgente. Como pode, de facto, uma mente tornar-se consciente do seu desvio e preconceito, quando este desvio provém de uma fuga colectiva à compreensão e assenta na textura integral de uma civilização? Como se pode instilar uma nova força e um novo vigor no desejo livre e desinteressado de conhecer, sem que o reforço active um novo desvio? Como pode a inteligência humana esperar lidar com as situações ininteligíveis, todavia objectivas, criadas, expandidas e escoradas pela fuga à compreensão? Podemos, ao menos, começar por questionar o que há para compreender, que dinâmicas do fluxo de consciência favorecem a intelecção, que interferências apoiam o erro e o equívoco; por fim, que implicam as respostas a tais questões em vista da orientação do pensamento e da acção humana.

Tenho de concluir. Na introdução, oferecer-se-á uma descrição mais exacta do objectivo e da estrutura deste livro. Devo agora reconhecer com brevidade a minha grande dívida de gratidão, em primeiro lugar, aos professores e autores que deixaram a sua marca no meu percurso de vinte e oito anos, desde que fui introduzido à filosofia. Tão prolongada tem sido a minha busca, e tão vasta parte dela tem sido uma luta tenaz com a minha própria fuga à compreensão, tantos têm sido os ofuscamentos e os desvios no meu lento desenvolvimento, que a minha sincera gratidão não consegue encontrar uma expressão, breve e exacta, embora inteligível. Prefiro, assim, nomear os benfeitores mais palpáveis: o pessoal de l’Immaculée-Conception em Montreal onde levei a cabo uma investigação histórica paralela; o pessoal do Seminário Jesuíta de Toronto, onde esta obra foi escrita; o Rev. Eric O’Connor da Faculdade de Loyola, Montreal, sempre pronto para me facultar a possibilidade de utilizar o seu vasto conhecimento em matemáticas e ciências; os Reverendos Joseph Wulftange, Joseph Clark, Norris Clarke, Frederick Crowe, Frederick Copleston e André Godin, que gentilmente leram o manuscrito e que, mediante os seus vastos conhecimentos, observações encorajadoras e críticas sensatas, me permitiram sentir que não estava de todo equivocado; ao Rev. Frederick Crowe, que levou a cabo a fastidiosa tarefa de compilar um índice.

1  Bernard Lonergan, “The Concept of Verbum in the Writings of St. Thomas Aquinas”, Theological Studies 7 (1946) 349-92; 8 (1947) 35-79, 404-44; 10 (1949) 3-40, 359-93. [Na obra, Verbum: Word and Idea in Aquinas, ed. David B. Burrell (Notre Dame: Univ. of Notre Dame Press, 1967) CWL2].


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