“Porquê Lonergan?”

Resposta a Robert Doran, S.J., 1 ” Lonergan porquê?” Celebração Inaugural do Seton Hall University Lonergan Institute 16 de novembro de 2006 Stephen Martin, Professor Assistente, Departamento de Estudos Religiosos, Seton Hall University

Tendo o prof. Doran mencionado a minha formação e interesse na teoria económica de Lonergan, gostaria de dar brevemente uma nota autobiográfica, e de seguida, aprofundar um pouco as contribuições de Lonergan para a teoria económica. Ao contrário da maioria dos lonerganianos, a minha atenção para o seu pensamento, foi criada pela leitura de ” Essay in Circulation Analysis” ” uma das primeiras obras que li. Escrito entre 1930-1944 para ajudar a diminuir o sofrimento causado pela incompreensão do processo económico que levou à Grande Depressão, acabou por ser o último de seus escritos a ter um impacto significativo, mas o suficiente para reorientar os meus interesses teológicos e actividades académicas. Um professor e discípulo do pensamento de Lonergan no seminário diocesano, onde eu estava a começar o meu mestrado em teologia sabia que eu tinha um bacharelado em Economia e assim emprestou-me uma cópia de uma versão do então manuscrito inédito de Lonergan. Circulava nos meios Lonerganianos, mas recebera escassa atenção dos estudiosos. Foi finalmente publicado em 1999 na Universidade de Toronto, como Macroeconomic Dynamics: An Essay in Circulation Analysis juntamente com outro volume escrito no mesmo período, For a New Political Economy.2 Embora eu pensasse que trocara completamente a economia pela teologia sistemática, li o manuscrito fotocopiado com respeito crescente por Lonergan e o meu professor, mas restituí-o sem sequer copiá-lo. O que lentamente me ocorreu quando depois trabalhei para o meu mestrado e doutoramento em estudos teológicos, lendo o Insight e o Método em Teologia, foi o poder explicativo do seu pensamento económico, em comparação com a minha educação económica anterior. Pela primeira vez após quatro anos de graduação e um ano de trabalho de pós-graduação em Economia senti que, finalmente, começara a entender a macroeconomia. Eventualmente, como Doran gentilmente mencionou, juntei um punhado crescente de pessoas convencido de que a macroeconomia de Lonergan não só tem a sofisticação teórica de Adam Smith, Karl Marx, John Maynard Keynes e Milton Friedman, mas é-lhe superior em muitos aspectos. Continuo a estudar e a escrever sobre a economia em Lonergan porque acredito que as suas contribuições são necessárias, especialmente quando o abrandamento económico está sempre no horizonte, e os “booms” dos últimos 15 anos praticamente não aumentaram o nível de vida da maioria da população, e a diferença entre as classes com maior e menor rendimentos continua a crescer, estejamos em crescimento ou depressão. Sem nos envolvermos nos aspectos técnicos e éticos, para dar-vos um pequeno sabor da sofisticação e abordagem da teoria económica de Lonergan, cito de Macroeconomic Dynamics: An Essay in Circulation Analysis: “A equity [renda excedente pura], deve ser direccionada para elevar o padrão de vida de toda a sociedade. A razão por que assim não sucede, não é a simples razão que dão os moralistas – ganância – mas a principal causa é a ignorância. A Dinâmica da produção básica e de mais-valia, e das expansões básica e de mais-valia não é compreendida, nem formulada, nem ensinada. Quando as pessoas não entendem o que está a acontecer e porquê, não se pode esperar que actuem com inteligência. Quando a inteligência se torna um espaço em branco, avança a primeira lei da natureza, a auto-preservação. Não é principalmente a ganância, mas os esforços frenéticos de auto-preservação que transformam a recessão em depressão, e depressão em crash”.3 Gostaria de acrescentar alguns comentários e citações a respeito desta abordagem geral da economia, a fim de ajudar a responder à pergunta do Bob Doran “Porquê Lonergan?” e “Porquê um Lonergan Institute em Seton Hall?” Porquê a teoria económica de Lonergan ? Primeiro, Lonergan questiona os que desejam manter os limites tradicionais entre disciplinas “objectivas” e “científicas”, como a economia, e disciplinas “subjectivas” ou “nebulosas” como a ética e a teologia. Mesmo as faculdades e universidades católicas experimentam uma tensão entre o que é ensinado nas escolas de gestão e economia e as de estudos religiosos, de teologia e ética. Lonergan contraria os que mantêm a hegemonia da economia em teoria económica: “…Deveríamos livrar-nos da distinção entre os teóricos de moral e os teóricos de economia. Os teóricos morais sobre a economia são também economistas; vêem o que é necessário para que a máquina funcione correctamente. E se não o fizerem? Bem, então temos de ter economistas melhores. Esta lição é repetida há cerca de dois séculos”.4 Ou, nas palavras de Joan Robinson, economista de Cambridge: “a economia é demasiado importante para ser deixada aos economistas.” Lonergan também se dirige aos que questionam a interdiscisciplinaridade do outro lado da academia, e dizem “O que tem a teoria económica a ver com a ética?” No seu ensaio “Healing and Creating in History,” escreve: “Quando o sistema necessário para a nossa sobrevivência colectiva não existe, então é inútil criticar o que existe, ignorando alegremente a tarefa de construir um sistema economicamente viável que pode ser colocado em seu lugar”.5 Em segundo lugar, a razão para Lonergan salientar a necessidade de colaboração interdisciplinar- é que a metodologia económica ortodoxa, em vez de ver o agente económico como um “sujeito consciente de forma empírica, inteligente e racional, e que desenvolve a inteligência e a razoabilidade, como uma entidade que, mesmo do ponto de vista do método científico, tem de ser abordado de forma essencialmente diferente do estudo dos átomos, ou das plantas ou animais. . .” em vez disso, repete, “considera a “actividade económica como uma série de eventos previsíveis da mesma forma que os físicos do século XIX, ou como eventos estatisticamente prováveis. “O resultado inevitável é que” [a] relação entre a ciência humana e a sua aplicação não será humana; será sub-humana”. 6 Lonergan está a apelar à teoria económica convencional para que incorpore como correctivo, na sua visão macroeconómica, a intencionalidade dos agentes económicos na sua plena capacidade de seres observadores, inteligentes, racionais e responsáveis e sustenta que ” [mesmo] quando os físicos podem pensar em termos de indeterminação, os economistas podem pensar com base na liberdade, e reconhecer a importância da moralidade”. 7 Resumindo o seu paradigma de colaboração interdisciplinar entre economistas, moralistas e teólogos, Lonergan escreveu: “Devemos exigir que dois requisitos sejam cumpridos. O primeiro diz respeito aos teóricos da economia, o segundo aos teóricos morais. Dos teóricos da economia temos de exigir, a par de todas os outros tipos de análise que queiram fazer, um tipo novo e específico de análise, que revele de que modo os preceitos morais assentam no processo económico e assim têm nele uma aplicação eficaz. Dos teóricos da moral temos de exigir, juntamente com as diversas formas de sabedoria e prudência, especificamente preceitos económicos que resultem do próprio processo económico e promovam o seu correcto funcionamento”.8 Em terceiro lugar, a um nível mais existencial, “negar a possibilidade de uma nova ciência e de novos preceitos é negar a possibilidade de sobrevivência da democracia”.Lonergan estava convencido disso.9 Por um Lonergan Institute em Seton Hall Embora esta abordagem possa parecer abstracta, tem implicações directas para a tarefa educativa em Seton Hall que assume explicitamente a tarefa de integrar o entendimento científico e os valores morais, e mesmo essa coisa subjectiva, e “nebulosa” chamada amor. Qual o problema se a ciência e os valores não forem integrados? “Os melhores educados tornam-se uma classe fechada sobre si própria sem uma tarefa proporcional à sua formação. . . O significado e os valores da vida humana empobrecem. A vontade de realizar afrouxa e estreita-se. Onde antes havia alegrias e tristezas, agora há apenas prazeres e dores. A cultura torna-se um “buraco”.10 A alternativa, diz Lonergan, é reconhecer que “não há critérios perceptíveis no processo produtivo.” A importância de um Instituto Lonergan em Seton Hall é que se esses critérios são “entendidos ou não, afirmados ou negados, observados de forma responsável ou ignorados” isso depende se este projecto é realizado por uma “comunidade de amor ou uma comunidade de egoístas”, 11 como Monsenhor Liddy e o Pe.. Haughey hoje sublinharam. Como escreveu Lonergan; “O desenvolvimento humano é de dois tipos diferentes. Há um desenvolvimento de baixo para cima, a partir da experiência e do entendimento crescente para o juízo equilibrado, e do juízo equilibrado para o curso de acção fecunda e frutuosa e dos cursos de acção para as novas situações que exigem uma maior compreensão e assim por diante, para um juízo mais profundo, e cursos mais ricos de acção. Mas há também o desenvolvimento de cima para baixo. Há a transformação da paixão no amor: o amor doméstico da família, o amor humano da nossa tribo, da nossa cidade, do nosso país, da humanidade, o amor divino que orienta o homem no seu cosmos e se expressa na sua adoração. Onde o ódio só vê o mal, o amor revela valores”.12 Lonergan observou uma vez, com possível surpresa para aqueles que desprezam o seu pensamento como “intelectualista”, que todo o seu projecto, como o prof. Doran, o descreveu hoje à noite, foi realizado para que “as viúvas e os órfãos não morressem de fome”.13 Esta é uma missão religiosa, bíblica, cristã, católica e pastoral, mas que exige um esforço sustentado interdisciplinar, académico e comunitário. E ficará muito reforçado pelo Seton Hall Lonergan Institute iniciado por Mons. Liddy e o apelo do padre Doran em ligar no ciberespaço os vários Institutos Lonergan em todo o mundo.

NOTAS

1 Emmitt Doerr Professor of Systematic Theology, Marquette University.

2 The Collected Works of Bernard Lonergan, ed. Frederick E. Crowe and Robert M. Doran, vol. 21, For a New Political Economy, ed. Philip McShane (Toronto: University of Toronto Press, 1998) and vol. 15, Macroeconomic Dynamics: An Essay in Circulation Analysis, ed. Frederick Lawrence, Charles Hefling and Patrick Byrne (Toronto: University of Toronto Press, 1999). 2

3 Lonergan, Macroeconomic Dynamics, 82. 5 Bernard Lonergan, “Healing and Creating,” in A Third Collection, ed. Frederick E. Crowe (New York: Paulist Press, 1985),108.

4 Cathleen Going, ed, Dialogues in Celebration, Thomas More Institute Papers/80 (Montreal: Thomas More Institute, 1980), 299 5 Bernard Lonergan, “Healing and Creating,” in A Third Collection, ed. Frederick E. Crowe (New York: Paulist Press, 1985),108.

5 Bernard Lonergan, “Healing and Creating,” in A Third Collection, ed. Frederick E. Crowe (New York: Paulist Press, 1985),108.

6 Bernard Lonergan, Understanding and Being: An Introduction and Companion to “Insight,” ed. Elizabeth A. Morelli and Mark D. Morelli, vol. 5 of Collected Works of Bernard Lonergan (Toronto: University of Toronto, 1990; 1st ed. 1980), 363-4.

7 Lonergan, “Healing and Creating,” 108.

8 Lonergan, “Healing and Creating,” 108.

9 Bernard Lonergan, “An Outline of Circulation Analysis,” [3] (an unpublished manuscript of an earlier version of ECA, available at the Lonergan Research Centre, Toronto).

10 Bernard Lonergan, Method in Theology (New York: Herder and Herder, 1972), 99.

11 Lonergan, Macroeconomic Dynamics, 5

12 Lonergan, “Healing and Creating in History,” 106.

13 Patrick H. Byrne, “Ressentiment and the Preferential Option for the Poor,” Theological Studies 54 (1993): 241.


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