Os processos de desenvolvimento: criatividade e regeneração

por João Simas

Em Macroeconomic Dynamics: An Essay in Circulation Analysis, precisamente em Healing and Creating in History, Lonergan cita a frase de Barnet e Muller em que se afirma que o novo sistema, do qual temos necessidade para a nossa sobrevivência colectiva, não existe[1]. Dado  que a sua não-existência presente não impede a sua existência futura, e que a crítica do que vigora não o pode produzir, Lonergan sublinha a necessidade da criatividade[2]. Em face da catástrofe provocada pela extensão à escala global dos princípios e objectivos da empresa multinacional- como sejam a maximização do lucro, o crédito indiscutível, as instalações comerciais em rede global, as dinâmicas de crescimento e expansão permanentes[3]– torna-se premente, em alternativa, um processo criativo, isto é, um processo de aprendizagem que desvelando a novidade desconhecida, realize o progresso.

Lonergan entende o progresso como criativo e como um processo dinâmico de transformações sucessivas da compreensão de uma experiência concreta. A partir do concreto são produzidos actos de compreensão ou intelecções que, unidas e complementadas por outras, corrigem e integram as primeiras, porquanto são já novas intelecções. Assim sendo, construir o novo sistema de sobrevivência colectiva fazendo uso da criatividade é, então, um acto de conquista do que ainda não se conhece a partir de actos de compreensão ou intelecções que se unem de forma integrada, que se complementam e corrigem (…), que influenciam políticas e programas, que revelam os próprios defeitos nos seus resultados concretos, que dão lugar a ulteriores compreensões correctivas, a políticas correctas e a programas correctos, que gradualmente evoluem de forma cumulativa até se transformarem num sistema completo e equilibrado (…) que era já necessário no começo, mas que então ainda ninguém conhecia.[4]

Ao apoiar a criatividade nos actos de intelecção (insight), Lonergan quer torná-la efectiva e eficaz e, como tal, distinta da efabulação dos slogans publicitários, e da abstracção dos conceitos que, na sua ambiguidade, nada dizem sobre a realização das suas possibilidades e implicações. Por conseguinte, o progresso surge quando, ao invés de um processo cumulativo de abstracções, ocorre um processo cumulativo de actos de intelecção que, integrando o concreto, constrói uma criatividade produtora do controlo de todas as eventualidades e complicações no contexto de uma determinada situação concreta.[5]

No entanto, a deformação (bias) e a distorção ameaçam interromper ou exaurir o livre curso cumulativo e coerente dos actos de intelecção, por condicionarem e excluírem da mente novas intelecções portadoras de sentidos criativos que fazem o progresso. Com efeito, Lonergan considera que as deformações do neurótico, do egoísta individual e grupal, bem como a deformação geral de todas as “boas pessoas” convencidas da omnipotência do seu bom senso, são exemplos de entraves à novidade por, de uma maneira ou de outra, cristalizarem formas de resistência ao movimento dinâmico da criatividade, que é o da produção de uma rede integrada de intelecções. A acção destas deformações tem como efeito uma visão distorcida sobre o processo de crescimento, o que transforma a roda de progresso em roda de declínio: em lugar do aumento de possibilidades em aberto para a compreensão de uma situação dada, assiste-se ao seu estreitamento progressivo, dado que uma situação é não mais o produto cumulativo de inteleccções coerentes e complementares, mas o ponto de descarga em que são lançados os produtos amorfos e incompatíveis de todas as deformações.[6]

No sentido de evitar as deformações que obviam as intelecções que constituem a criatividade, e realizar o desenvolvimento, o processo criativo deve, então, ser acompanhado por um processo regenerador. A regeneração ou cura, oposta a qualquer tipo de ódio e manipulação materialista, é entendida como um movimento em sentido inverso ao movimento da criatividade: enquanto esta desenha um movimento de baixo para cima- partindo da experiência e ascendendo à compreensão crescente que dá lugar a um juízo equilibrado e este a fecundos cursos de acção em que emergem as novas situações sujeitas ao mesmo processo- a regeneração desenha um movimento de cima para baixo de transformação própria ao processo de enamoramento: o amor doméstico da família; o amor humano da própria tribo; da própria cidade, da própria nação, da humanidade; o amor divino que orienta o ser humano no seu cosmos e que se exprime na adoração.[7]

A complementaridade e a concomitância destes dois processos, permitem a superação daquilo que, em ambos, se constitui como possiblidade de destruição, ou inversão. Assim, a regeneração opera, através do amor, a dissolução das deformações e distorções que impedem a criatividade, e a criatividade opera, através da integração cumulativa de intelecções, a dissolução do ódio (filosófico ou religioso) e do materialismo que impedem a regeneração.

Resulta claro que, por um lado, o desencontro ou o desfasamento entre os dois vectores, provocado por deformações e distorções ou pelo ódio e manipulação materialista, conduz à concentração estagnada de intelecções que bloqueiam o movimento dinâmico- ascendente e descendente- ínsito ao desenvolvimento; e, por outro lado, que a inteligibilidade (as intelecções e o respectivo processo cumulativo de integração, complementaridade e correcção) é a sua condição de possibilidade.

Esta noção lonerganiana de desenvolvimento tem necessárias repercussões epistemológicas.  Se o desenvolvimento se torna possível pela inteligibilidade, uma vez que segue o curso dos processos criativo e regenerador que lhe são intrínsecos, aqueles que teorizam sobre o desenvolvimento económico e moral têm necessariamente de incorporar, quer nas teorias quer nas práticas metodológicas, as implicações de uma inteligibilidade dinâmica que nunca é produto de cristalizações estagnadas de sentido, sob pena de se entregarem a construções distorcidas pela deformação ou a manipulações movidas pelo ódio.

Segue-se que a interdisciplinaridade é o efeito epistemológico da consideração do desenvolvimento como resultado da criatividade e regeneração. Num contexto da crise económica acima referida, impõe-se aos economistas a criatividade de incluir os preceitos morais nas suas reflexões sobre o processo económico, de modo a reconhecerem-lhes a sua base económica, e inversamente, impõe-se aos teóricos da moral a regeneração que forneça preceitos especificamente económicos que brotem do próprio processo da economia e promovam o seu correcto funcionamento.[8] O progresso até à existência de um sistema de sobrevivência colectiva é tanto mais possível quanto mais a moral for económica e a economia for moral.

Assim, a interdisciplinaridade na compreensão do concreto, reforça a coerência da (chamemos-lhe assim) “espiral hermenêutica” proposta por Lonergan, dado que na acção interdisciplinar dos saberes- económico e moral, neste caso- se reproduz aquilo que sucede com os dois processos de desenvolvimento- criativo e regenerador- e também o que sucede com as intelecções num acto de compreensão: integração, complementaridade e correcção. Lonergan vê que a cada momento, a montante e a jusante, do processo cumulativo de intelecções, a possibilidade de novas integrações, novas complementaridades e novas correcções, é o que permite realizar o desenvolvimento humano.

Vemos assim que o facto de a análise macroeconómica de Lonergan ter surgido no contexto económico gerado pela Grande Depressão dos anos 30, é tanto mais relevante quanto mais a noção lonerganiana de inteligibilidade integrar a de desenvolvimento económico. Com efeito, e segundo Lonergan, as crises económicas resultam principalmente da ignorância, da ausência de um insight ou acto de intelecção que ofereça a cada agente económico a compreensão do processo em que está inserido, e não, como pretendem os moralistas, de um defeito de virtude, como a ganância.

Porém, a inteligibilidade económica requer uma adaptação da teoria e da prática económicas àquilo que se constitui como variável ou dinâmico, o que remetendo para a referida interdisciplinaridade, configura uma nova economia que se constrói, não a partir de elementos estáticos e estatísticos, mas a partir da intencionalidade dos agentes económicos.[9]


[1] LONERGAN, B., “Healing and Creating in History” in Macroeconomic Dynamics: An Essay in Circulation Analysis, Collected Works of Bernard Lonergan, University Toronto Press, vol.15, 1999, pp. 97-106. in Revista Portuguesa de Filosofia, trad. port. Vila-Chã, J.J., nº 65, 2009, p. 633.

[2] Idem, p.634

[3] Idem. p.633

[4] Idem, p. 634.

[5] Idem, p. 635.

[6] Idem, p.636.

[7] Idem, p.637.

[8] Idem, p.639.

[9] HENRIQUES,M.C., Bernard Lonergan: uma filosofia para o século 21, 2010, p. 60.


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